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29/01/2018 às 07:19:06
Prestes a completar 80 anos, Martinho da Vila celebra a Vila Isabel em CD

Na última quinta-feira, Martinho estreou a turnê do disco Alô
créditos: Martinho da Vila

 São quase 50 álbuns, 19 livros e um número incontável de composições. Esse é o histórico artístico do carioca de Duas Barras, Martinho José Ferreira. Mais conhecido como Martinho da Vila, o nome do compositor veio da relação com a escola de samba Vila Isabel, que começou há mais de 50 anos, quando ele ainda dava os primeiros passos dentro do gênero musical em outra agremiação. “A gente nasceu junto”, define Martinho em entrevista ao Correio.


Essa relação de proximidade do cantor e compositor com a escola faz com que as histórias de ambos se entrelacem. Apesar de dizer que não vai mais à escola com tanta frequência, como fazia no passado, Martinho sempre está ligado ao carnaval de lá, seja fazendo sambas-enredos, seja desfilando. Neste ano, ele estará no abre-alas da Vila Isabel, que cantará na Sapucaí o samba Corra que o futuro vem aí, de Pinguim, JP, Marcelo Valência, Júlio e Deco Augusto.


Há dois anos, quando a Vila Isabel completou 70 anos, Martinho quis lançar um disco de comemoração. Por conta da agenda, acabou não conseguindo. Mas o sonho não foi abandonado. Agora, ele lança o álbum Alô, Vila Isabeeeel!!! com 25 músicas que celebram a história da escola. “É meu feliz aniversário atrasado”, explica Martinho. Das canções, algumas são inéditas compostas, pela ala de compositores da Vila Isabel, e outras são sambas clássicos, como Kizomba, a festa da raça (1988), Soy loco por tí, América (2006) e A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo (2013) — enredos que levaram a agremiação a vitória no grupo especial.


Para celebrar a escola do coração, Martinho da Vila convocou seis de seus filhos (Mart’nália, Tunico da Vila, Maíra Freitas, Martinho Antônio, Juju Ferreirah e Analimar Ventapane) e um dos netos (Raoni Ventapane), além de músicos ligados à escola, como Gaúcho da Vila, Jorge Tropical e a própria Velha Guarda. “Meus filhos, por exemplo, estão neste novo disco. Não porque são meus filhos, mas porque são Vila Isabel”, justifica.


Na última quinta-feira, Martinho estreou a turnê do disco Alô, Vila Isabeeeel!!!, no Rio de Janeiro. Em 1º de março se apresenta com o repertório em São Paulo e já tem show agendado em Belo Horizonte. Sobre Brasília, anuncia: “Quero ir, com certeza”. Ao Correio, Martinho da Vila falou sobre a história no samba, o processo de gravação do álbum e, bem-humorado, tentou fugir de polêmicas.


Entrevista / Martinho da Vila


Como a música entrou na sua vida?
Isso foi desde pequeno. Todo mundo quando é miúdo já faz uns versinhos, uma paródia. Eu sempre fui percursionista, desde criança. Então, isso me ajudou.


Essa música que está presente na sua vida desde a infância também passou para os seus filhos...
Exatamente. Meus filhos, por exemplo, estão nesse novo disco. Não porque são meus filhos, mas porque são Vila Isabel. Isso é muito forte neles. Hoje, eles são mais presentes do que eu lá (na escola). Todo mundo que eu botei no disco é gente da Vila Isabel. Não tem nenhum convidado que não tenha uma ligação com a Vila.


A sua história na música tem uma ligação direta com a Vila Isabel. Como isso se estabeleceu?
Há muito tempo, 52 anos para ser mais exato. Quando a Vila Isabel foi para o grupo das escolas de samba eu estava em outra agremiação, a Aprendizes da Boca do Mato. Então, eles me chamaram para reforçar a escola e a gente nasceu junto.


O que o motivou a lançar neste ano um disco em que celebra a Vila Isabel?
Esta celebração eu preparei para quando a Vila Isabel fizesse 70 anos, o que aconteceu há dois anos. Mas eu não consegui terminar o disco a tempo. Estava com uma agenda muito complicada. Não deu tempo de fazer. Como eu já tinha começado, pensei: “Isso vai ficar tão bonito que eu poderia lançar e fazer a qualquer tempo”. Estou fazendo agora. É meu feliz aniversário atrasado.


O disco tem 13 faixas e vários pot-pourri chegando a 25 canções. Como foi escolher o repertório desse álbum?
A Vila Isabel tem uma ala de compositores. Falamos com eles para que fizessem músicas alusivas à escola, ao bairro... E eles fizeram. Foi difícil fazer uma escolha porque vieram muitos sambas. Eram mais de 50. Foi como um concurso. Pegamos alguns desses sambas, rememoramos outros, porque o disco conta a história da escola através do samba, como ela nasceu, quem são os grandes nomes, e tem também os três sambas que fizeram a Vila campeã. Gravar esse disco foi um momento muito emocionante, sobretudo porque o tempo todo ficamos lembrando dos personagens antigos da Vila. 


Em 2018, a Vila Isabel sairá na avenida ao som de Corra que o futuro vem aí. Como será a sua participação neste ano?
A Vila vai fazer um desfile bem progressista, diferente, mais baseado na tecnologia. É um trabalho do Paulo Barros, que tem o seu tipo de fazer o carnaval. Eu não me envolvi nesse ano não. Estarei apenas como um componente. Vou desfilar no abre-alas. Vou ser a primeira pessoa. Eles planejaram isso para ficar um pouco diferente. Geralmente no abre-alas quem desfila é algum destaque com fantasia, as mulheres e tal. Eles decidiram colocar o Martinho da Vila e mais ninguém. Eles acabaram me convencendo e dizendo que eu poderia ir como eu quisesse.


O senhor completa 80 anos em fevereiro. A chegada da idade pesa de alguma forma? O que muda?
Pra mim, não muda nada não. Não vejo muita diferença de alguns anos ou muitos atrás. Quando a gente é jovem, não se imagina velho. Não dá para imaginar e quando se imagina, pensa em alguém bem velhinho em casa vendo televisão, jogando cartas. Sinceramente, eu estou mais ativo nesses últimos anos.


A sua veia compositora é algo muito forte no samba. Como se dá o seu processo de composição?
Quando tenho vontade de falar alguma coisa, eu faço um samba. Quando quero falar mais, escrevo um livro. No livro, o que é mais legal é porque você pode esticar bastante o pensamento. Na música, tem que resumir. Hoje, só estou pensando no disco, em fazer shows de lançamento, na minha preparação para essa turnê.


Hoje, os ritmos de maior destaque no Brasil são o funk e o sertanejo. Como o senhor vê o samba atualmente?
O samba está sempre forte. De tempos em tempos, tem um outro movimento, algum outro ritmo que fica mais na mídia em geral, muito em função dos artistas que surgem. A ascensão de um gênero tem muito a ver com os artistas que aparecem, se são carismáticos, notáveis, eles acabam atraindo toda a atenção para o seu ritmo. Mas o samba está sempre por aí.


Há alguns anos, o senhor chamou atenção por começar a cursar relações internacionais. O que o motivou a voltar a estudar?
Sou ligado às relações internacionais por causa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (da qual ele é Embaixador de Boa-Vontade). Eu queria entender um pouco mais das histórias dos países, das relações, da teoria. Fui buscando conhecimento. O curso é de três anos, eu já fiz tudo. O último ano, o quarto, é só para quem vai exercer a profissão, é a preparação para quem vai seguir a diplomacia e fazer um concurso para o (Instituto) Rio Branco. Eu não, então, não fiz esse pedaço.


Vivemos em um momento de incerteza no país. Que análise faz num ano em que teremos eleições?
Olha, eu estou fugindo desse assunto. O Brasil está parecendo um país que foi inventado por Lima Barreto (conhecido pela ironia e sátira). Eu tô de férias, por enquanto, não quero nem saber. (Risos).






Fonte.cidadeverde

Publicado Por.Antonio Francisco

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